Capítulo 2
Muito além do clima organizacional
Poucos temas ganharam tanta relevância nas organizações nas últimas décadas quanto o clima organizacional. À medida que as empresas passaram a reconhecer a importância das pessoas para seus resultados, tornou-se natural buscar instrumentos capazes de compreender como os colaboradores percebiam seu ambiente de trabalho, suas lideranças e as condições oferecidas pela organização. Foi nesse contexto que as pesquisas de clima organizacional se consolidaram como uma das principais ferramentas de gestão de pessoas.
Essa evolução representou um avanço significativo. Pela primeira vez, muitas organizações passaram a ouvir seus colaboradores de forma estruturada, identificando níveis de satisfação, oportunidades de melhoria e fatores que influenciavam o engajamento das equipes. As pesquisas de clima contribuíram para ampliar o diálogo entre liderança e colaboradores e fortaleceram uma cultura de escuta que continua sendo extremamente relevante.
Entretanto, à medida que essas pesquisas se tornaram mais frequentes, uma nova pergunta começou a surgir.
Seria possível compreender a cultura organizacional apenas observando a percepção momentânea das pessoas?
Essa pergunta marca uma distinção importante entre dois conceitos que frequentemente são tratados como sinônimos, mas que representam fenômenos diferentes.
O clima organizacional corresponde à percepção que os colaboradores têm da organização em um determinado momento. Trata-se de uma fotografia da experiência vivida pelas pessoas. Como toda fotografia, ela registra uma realidade específica, influenciada pelo contexto em que foi produzida. Mudanças recentes na liderança, um processo de reestruturação, a implantação de um novo benefício ou até mesmo acontecimentos externos podem alterar significativamente essa percepção, produzindo resultados distintos em períodos relativamente curtos.
A cultura organizacional, por sua vez, opera em um nível mais profundo.
Ela não representa apenas aquilo que as pessoas sentem hoje, mas o conjunto de valores, comportamentos, práticas e relações que, ao longo do tempo, passou a orientar a forma como a organização funciona. Enquanto o clima pode variar em resposta a acontecimentos específicos, a cultura tende a apresentar maior estabilidade, justamente porque está relacionada aos mecanismos que moldam essas experiências.
Talvez uma analogia ajude a compreender essa diferença.
Imagine um lago.
O clima organizacional corresponde ao estado da superfície da água. Em determinados dias ela estará calma. Em outros, agitada. O vento, a chuva ou qualquer alteração nas condições externas podem modificar rapidamente sua aparência.
A cultura organizacional, entretanto, encontra-se abaixo da superfície.
Ela corresponde ao relevo do fundo do lago, à profundidade de suas águas, às correntes que movimentam seu interior e às características que permanecem praticamente inalteradas mesmo quando a superfície muda.
Observar apenas a superfície pode revelar informações importantes.
Mas compreender o lago exige olhar além dela.
Com as organizações acontece exatamente o mesmo.
Uma pesquisa de clima pode indicar que os colaboradores estão satisfeitos com a comunicação ou insatisfeitos com determinada liderança. Esses dados são extremamente valiosos, pois revelam como as pessoas estão percebendo a organização naquele momento.
Entretanto, eles não explicam, por si só, por que essas percepções existem.
Essa distinção altera profundamente a forma de interpretar os resultados.
Quando uma pesquisa revela baixo nível de reconhecimento, por exemplo, ela identifica um sintoma importante. Mas esse sintoma pode ter origens diferentes. Em uma organização, pode decorrer da ausência de políticas claras de valorização das pessoas. Em outra, pode estar relacionado a dificuldades de comunicação entre líderes e equipes. Em uma terceira, pode ser consequência de valores organizacionais que privilegiam exclusivamente indicadores de desempenho individual.
Em todos esses casos, o resultado observado é semelhante.
A origem, porém, é completamente diferente.
É justamente essa busca pelas causas estruturais que diferencia uma metodologia de cultura de uma pesquisa de clima.
Enquanto a pesquisa procura compreender como as pessoas percebem a organização, a análise da cultura procura compreender por que essa percepção foi construída.
Essa mudança de perspectiva desloca a discussão de um plano descritivo para um plano explicativo.
Não basta saber que determinado indicador apresentou desempenho inferior ao esperado.
É necessário compreender quais elementos da cultura estão produzindo esse resultado e como eles se relacionam entre si.
É nesse ponto que surge o Modelo ICO.
O Índice de Cultura Organizacional não substitui a pesquisa de clima. Tampouco pretende competir com ela. Na realidade, o clima constitui uma das principais manifestações da cultura e fornece informações essenciais para sua interpretação. O que o ICO propõe é ampliar essa leitura, organizando essas percepções dentro de um modelo capaz de explicar as relações de causa e efeito que sustentam a vida organizacional.
Em vez de analisar cada indicador de forma isolada, a metodologia procura compreender como diferentes dimensões interagem entre si para produzir determinada realidade. Liderança, valores, comunicação, ambiente de trabalho, desenvolvimento, reconhecimento, orgulho de pertencer e segurança psicológica deixam de ser apenas temas independentes de uma pesquisa e passam a integrar um sistema organizado de interpretação da cultura.
Essa visão sistêmica representa uma mudança importante na gestão organizacional.
Da mesma forma que um médico não interpreta cada exame isoladamente, mas procura compreender como diferentes indicadores se relacionam para explicar o estado geral de saúde do paciente, o ICO interpreta diferentes manifestações organizacionais como partes de um mesmo sistema.
Essa abordagem permite identificar não apenas os sintomas presentes na organização, mas também os fatores que os originam e os mecanismos capazes de promover mudanças consistentes ao longo do tempo.
Por essa razão, o objetivo do ICO nunca foi produzir um relatório mais sofisticado ou um painel com maior quantidade de indicadores.
Seu propósito é oferecer uma nova forma de compreender a cultura organizacional.
Uma forma que reconhece a importância da percepção dos colaboradores, mas entende que essa percepção representa apenas a parte visível de um sistema muito mais amplo, composto por valores, comportamentos, relações e práticas que, silenciosamente, influenciam todas as decisões tomadas dentro da organização.
É justamente esse sistema que será explorado no capítulo seguinte. Antes de compreender como a cultura pode ser medida, será necessário compreender como ela se forma. Afinal, somente quando entendemos os mecanismos que constroem uma cultura somos capazes de desenvolver instrumentos adequados para interpretá-la e fortalecê-la.